(!) Por TJGuimarães
O MURALISMO MEXICANO – UMA MEMÓRIA CULTURAL LATINA
David Alfaro Siqueiros foi um dos maiores pintores mexicanos e um dos protagonistas do Movimento Muralista Mexicano, juntamente com Orozco e Rivera.
Movimento Muralista Mexicano – Antes de mais nada vamos dar uma pincelada nessa manifestação artística de grande importância para o México; o que é e qual o seu contexto.
Exploração, condições precárias, opressão, ausência do Estado, campesinato, revolta, tomada: o primeiro parágrafo da história das revoluções geralmente se formata com essas questões. Foi exatamente nesse contexto que a Revolução Mexicana se configurou em 1910 a 1920, como uma das mais importantes revoltas populares da América Latina.
Como a Revolução tinha chegado ao poder, o contexto pedia a unificação do povo, o momento do pensar e de construir uma identidade nacional. Como as raízes mexicanas foram diretamente integradas ou envolvidas no movimento revolucionário, era necessário pensar em quem era esse povo, quem constituía essa “nação”. Paralelo a esse contexto, o movimento modernista, que se firmou como uma forte corrente de vanguarda nas artes – nessa época – propunha, entre outras coisas, uma discussão acerca das nacionalidades.
É nessa conjuntura que o Movimento Muralista aflora em um México pós-revolucionário, catalisado pelo sentimento libertador do evento: o momento em que o povo derruba o regime ditatorial e começa a buscar seus próprios interesses – e tem como tema máximo a independência da América espanhola – um momento de quebra da dominação política da metrópole e o nascimento dos Estados Nacionais.
É dessa forma que Diego Rivera, David Sequeiros, José Orozco – considerados ‘los tres grandes’ – pintam uma série de Murais nos palácios públicos, com o objetivo de retomar a temática social, sendo vistos, como precursores de uma arte pública em função de seu compromisso político bem como seu apelo visual; a questão era romper com as estéticas e modelos europeus e propor uma arte que fosse do povo e para o povo. É nesse momento que a pintura sai do cavalete e dos espaços segregados e elitizados, simbolizando que não mais pertence a uma pessoa, e sim ao povo, e vai para as paredes – muros – dos edifícios públicos, daí o nome.
Nascido em 1896, em Chihuahua, no México. Órfão de mãe desde pequeno, viveu como nômade em seu círculo familiar. Em 1908, sua família se instalou na Cidade do México. Teve suas primeiras aulas de pintura com o mestre mexicano Solares Gutiérrez. Anos depois foi inscrito por Dom Cipriano, aos quinze anos, na renomada Academia de San Carlos, onde lecionava Leandro Izaguirre (1867-1941), considerado o maior pintor nacional daquela época.
Finalmente ingressou na Escola de Pintura ao ar Livre de Santa Anita, a qual abandonou para alistar-se como subtenente no Exército Constitucionalista. Ao voltar ingressou na Escola Nacional Preparatória (ENP), ao mesmo tempo em que continuava sua carreira política como membro do Comitê Executivo do Partido Comunista do México e Secretário Geral do Grêmio de Artesãos, Escultores e Pintores. Aí já se revelava a sua faceta de ativista político. De fato, a atividade artística de Siqueiros foi sempre acompanhada de uma intensa atuação política e foi, em sua própria, arte também uma atividade política. Sua primeira obra importante foi uma série de afrescos que terminou em 1924 para a ENP.
Comunista radical, sendo um estalinista convicto, esteve preso durante dois anos por ordem do Partido Comunista Mexicano, do qual foi expulso, lutou na guerra civil espanhola contra as tropas de Francisco Franco e, mais tarde, foi acusado de uma tentativa de assassinato a León Trotsky, pelo qual, depois de algum tempo fugido, foi preso e exilado no Chile.
Siqueiros fez pintura de cavalete, mas distinguiu-se principalmente pela pintura Muralista, onde foi um desbravador em termos de técnicas inovadoras. Ele tinha uma grande preocupação em experimentar novos materiais e novas técnicas, tendo a sua investigação nesta área sido uma importante contribuição para a pintura Mural.
A grande temática da sua obra foi a Revolução Mexicana e o seu povo, que ele representa como o protagonista da luta por uma sociedade melhor, mais justa, a sociedade socialista utópica. A sua pintura é de intervenção política, de crítica à sociedade capitalista e de defesa dos ideais comunistas, que nele assumem uma dimensão monumental pela força e franqueza das suas manifestações e convicções. Em 1966 foi-lhe atribuído o Prêmio Lênin da Paz. Quem diria hein?
Siqueiros foi soldado do Exército Constitucionalista de Venustiano Carranza. Finalizada a Guerra Civil Mexicana em 1920 e a instauração de um regime nacionalista revolucionário que apresentava entre suas propostas a revitalização cultural do país, Siqueiros foi convocado pelo ministro da educação nacional, José Vasconcellos para fazer parte do governo de então. Como ativista remodelador pelo moderno, programa uma declaração de princípios sociais, políticos e estéticos, exemplificadas por excertos à frente:
- “Repudiamos lallamada pintura de caballete y todo tipo de arte fomentado por círculo ultraintelectuales porque es aristocrático, y ensalzamosel arte monumental en todas sus formas porque es propiedad pública”…
- “los creadores de belleza deben hacer el máximo esfuerzo para producir obras de arte ideológicas para su pueblo; el arte no debe seguir siendo la expresión de la satisfacción individual, como lo es actualmente, sino que debe tender a convertirse en un arte educativo y combativo para todos”.
Estas intenções manifestadas já supunham uma tremenda revolução no Muralismo Mexicano do que é peça chave junto a Diego Rivera e José Clemente Orozco (apesar de pertencer praticamente a uma geração posterior), constituindo o grupo de “los três grandes” dentro do movimento supracitado.
A vitória desta facção na Revolução Mexicana (1910 – 1920) e a efetiva chegada ao poder fizeram com que Siqueiros tivesse uma influência determinante na construção do sistema educativo mexicano. Segundo seu entendimento, a arte era um meio idôneo para transmitir os valores revolucionários de forma massificada.
Ele passou pela Europa, onde teve contato com as vanguardas artísticas de então. Ao voltar para o México, Siqueiros começou, junto com Diego Rivera, a experimentar e a desenvolver o que ficaria conhecido como Muralismo Mexicano.
Durante estas viagens, ele também adotou o marxismo como ideologia, o que influenciou profundamente sua produção artística, que para ele funcionava como uma forma de arte revolucionária e popular. Um método para a educação do proletariado. A paixão, o autoritarismo e sua admiração pelo socialismo soviético foram características tanto de sua arte como em seu pensamento e ação política.
Comunista radical e stalinista convicto, esteve preso durante dois anos por ordem do Partido Comunista Mexicano, do qual havia sido expulso. Depois de ser preso em 1930, exilou-se em Taxco e de lá se foi para Los Angeles, onde começou a fazer experiências com novas técnicas. Depois se mudou para Nova York onde organizou o seu Siqueiros Experimental Workshop.
David Siqueiros, como todo “bom” comunista, buscava retratar os problemas e sofrimentos de seu povo e criar uma identidade nacional para o país depois da Revolução Mexicana (1910 – 1920) com seus Murais para prédios públicos. Foi o mais radical do trio. Ele abraçou radicalmente a ideia de que a arte coletiva educaria o proletariado para a ideologia marxista. Siqueiros raramente usava um cavalete, preferindo métodos e tintas comerciais e industriais, como pigmentos à base de nitrocelulose (piroxilina) e a pistola de tinta. Muitos o têm como precursor do grafismo contemporâneo.
Influenciado pelos povos indígenas mexicanos e pelos estilos assimilados na Europa, as obras de Siqueiros retratam camponeses heroicos e fortes e trabalhadores comuns lutando contra invasores e regimes totalitários e opressores do sistema capitalista. Esse seu envolvimento político o levou a se exilar em 1932 nos Estados Unidos. Alguns anos depois viajou à América do Sul, onde fez conferências no Brasil e na Argentina.
É possível observar em seus murais, de uma forma geral, o retrato desse povo: a Civilização Asteca, o índio, o colonizador, o mestiço, pois isso criava o sentimento de “pertencimento”. Afinal, estes agentes tiveram papel fundamental no processo revolucionário mexicano e como as questões “indígena” e de “mestiçagem”, são um tema recorrente na história de toda a América Latina, registrar o passado hispânico foi fundamental para a construção de uma identidade nacional.
Em 1937, Siqueiros abandona a pintura para se alistar nas brigadas estrangeiras que lutavam ao lado dos republicanos da Espanha. Passa boa parte da conflagração espanhola em Barcelona, discutindo pintura e colaborando na retaguarda do movimento revolucionário antifranquista. O interessante nesse caso, é que ele chegou à patente de tenente coronel nessa Guerra Civil Espanhola.
Em 1940, exilou-se voluntariamente nos Estados Unidos e em Cuba por ter se envolvido no atentado desastroso a León Trotsky, exilado no país. Siqueiros também pintou, nos Estados Unidos, um afresco no Plaza Art Center, chamado Tropical América – “OpressedandDestroyedbytheImperialists”. A obra causou tanta polêmica e indignação que ele foi obrigado a sair do país para não ser deportado. Regressa ao México, em 1944, terminando assim, o tríptico A Nova Democracia – súmula de suas esperanças no renascimento mundial, após a hecatombe que na Europa sacrificou, entre vidas e feitos, a própria arte.
Algumas das principais obras de David Alfaro Siqueiros
“Autorretrato (El coronelazo)”, (1945);
“Del porfirismo a la Revolución”, (1957 – 1966);
“La marcha de la humanidad”, (1967 – 1971);
“El pueblo a la Universidad y la Universidad al pueblo”, (1952 – 1956).
Grande parte de suas criações está presente em diversos pontos do México e da capital, Cidade do México: Na A Escola Preparatória (1922), no Sindicato dos Eletricitários (1939) e no O Palácio de Belas Artes (1940) dentro do Distrito Federal ou o Mural “Los elementos” na Escola Nacional do México (1923). Ademais nos EUA, se pode admirar parte de sua produção artística nas cidades de Filadélfia, Los Angeles e Nova York, além de outros países como Argentina e Cuba.
(!) Historiador, Jornalista e Professor de História/Geografia/Filosofia/Sociologia